terça-feira, 28 de setembro de 2010
Esta tal de dança contemporânea
Eu fiquei encarregada, juntamente com a Clarissa, minha cara amiga que é tão desligada quanto eu e até agora não sabe onde fica o xerox, de falar sobre dança contemporânea.
OK. Até aí, tudo certo.
A tragédia foi perceber que eu não sei falar nada sobre aquilo que eu faço.
Me dei conta de que eu não sabia mesmo, e continuo sabendo muito pouco sobre dança contemporânea, em termos teóricos (práticos tb, mas menos...rs)
O que eu sempre fiz foi dançar, e atualmente com o Coletivo, passei a pesquisar, mas sempre na esfera da prática.
Bom, achei este pequeno artigo, que tem algumas definições básicas.
Ao menos é um pontapé inicial.
Segue o link do texto, que é curtinho: Esta tal de dança contemporânea
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Leon
A citação é do Trotsky e no fim quem comenta é o Bensaid:
"A humanidade ainda não conseguiu racionalizar a sua história. É um fato. Não conseguimos racionalizar os nossos corpos e os nossos espíritos. A psicanálise tenta ensinar-nos a harmonizá-los. Sem grande sucesso, até o presente. A questão não é de saber se podemos esperar a perfeição absoluta da sociedade. Após cada grande passo a frente, a humanidade faz um desvio, e mesmo um grande passo atrás. Lamento-o, mas não sou responsável [risos]. mesmo após a revolução mundial, é bem possível que a humanidade esteja muito cansada. Para uma parte dos homens e dos povos, uma nova religião pode mesmo surgir, mas um grande passo não terá ficado por dar." Este combate solitário num jardim perdido dos subúrbios da cidade do México, é talvez o mais importante a seus olhos. Outubro podia ter tido lugar sem ele, talvez mesmo sem Lenin, já que enquanto a história avança na boa direção, ela encontra os homens de quem tem necessidade. É na derrota que nos tornamos insubstituíveis. Nos ventos contrários, os justos tornam-se raros.'
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
2+2=5
Sim. Domingo à noite. Sábados à noite viraram nossos dias de ensaio graças a nossa super compatibilidade de horários.
Diga-se de passagem, ensaios muito bons. De repente a coisa começa a andar, as ideais começam a aparecer. E o prazer de ensaiar também.
Para mim o Desculpe o Transtorno, que é nosso projeto de criação atual, tem muito da opressão da vida cotidiana e muito da nossa aceitação com relação à ela.
A sensação de desunião, e não apenas desunião, mas também de competição e de sadismo que perpassa as relações e sua aceitação desta situação como natural.
As imagens que vêm são muitas: a mecanização da vida, a esterilidade, a miséria não apenas material, a diferença entre sanidade e loucura, a resistência e sua possibilidade efetiva de existir, o esvaziamento da vida de maneira geral.
É uma necessidade para mim dançar isso, e é maravilhoso poder dançar e criar junto com outras pessoas que pensam e sentem essa pressão da vida que levamos.
Segue o vídeo do música, que ilustra bem o sentimento.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Máquina Ruim
Fiquei muito impressionada e ele é muito bom mesmo.
Lembro de não ter entendido de primeira a cena que hoje mais me comove no filme e de ter perguntado ao meu pai o que ela significava..
Bom, não direi a resposta dele porque as imagens, a partir do minuto 2:48 mais ou menos falarão.
Inclusive acho que as falas na cena são redundantes pois as imagens são mais fortes.
Tudo bem. E o que isso tem a ver com os intermitentes, com a dança, enfim?
Na minha opinião essa cena - entre 2:48 até 4 minutos mais ou menos- diz muito sobre a pesquisa do coletivo, e mais, arrisco dizer sobre o que somos e o que queremos ser não apenas como artistas mas como gente mesmo.
Bom, no que a gente tem pesquisado agora, a questão do trabalho e da alienação do homem de sua própria atividade criativa e criadora, vem muito a calhar, a imagem dos mortos-vivos, e a questão de quem está louco e de quem é são.
A reprodução da vida cotidiana, ainda que em um grau seja necessária, sem reflexão se transforma num aprisionamento.
Eu me sinto aprisionada com esses moldes pré-estabelecidos da forma de viver.
Imagino que o Ed e a Natália também e espero seus depoimentos sobre isso.
O aprisionamento vem tanto se vc cumpre tudo à risca quanto quando vc tenta resistir e não consegue dialogar com ninguém.
O mundo parece querer te expelir e começa a pulsar, para que você, ESTRANHO, seja excretado. Ou ainda ele sussurra ao pé do ouvido: adapte-se, adapte-se.
Pra terminar: recebi recentemente um vídeo de um amigo muito querido, que sabendo da pesquisa do coletivo me mandou um trecho de coreografia do Philippe Decouflé chamada CODEX3, assim que eu vi lembrei do Expresso e da cena que me marcou.
Eis aqui os trechos:
A cena principal é a partir dos dois minutos e quarenta e cinco segundos.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Operário em construção
Achei lindo. Levei para o Ed e para a Na, ele não conhecia, ela sim e disse que o professor do cursinho sempre o recitava.
O poema faz parte da nossa próxima pesquisa.
O Operário em Construção
Vinicius de Moraes
E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.
Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– "Convençam-no" do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.
Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.
Our Love na Flaskô
A Flaskô é uma fábrica ocupada pelos trabalhadores desde 2003, quando foi decretada falência por conta de salários atrasados e falta de pagamento dos encargos trabalhistas.
É um espaço de luta dos trabalhadores.
Neste fim de semana teve o festival de arte e cultura na Flaskô, para o qual fomos convidados e adoramos participar.
É sempre muito gratificante dançar pra gente de verdade, com toda a generosidade e desprendimento necessários para resistir e lutar por um mundo melhor nas condições absolutamente adversas que nos encontramos hoje.
Eu fiquei particularmente satisfeita com a atenção das pessoas - e gostaria que a Na e o Ed tb colocassem suas impressões - ao nosso trabalho. Senti que o Our Love dialoga e que as pessoas se sentem movidas pelas nossas questões levantadas em cena.
Antes eu me questionava se a nossa temática era demasiadamente urbanóide, acho que sim, ela é bem particular e paulistana, mas sinto ao mesmo tempo que esse estranhamento nas relações tem se generalizado. O outro é cada vez mais distante, estéril e hermético...
O medo parece dominar de vez, medo de entrega e de contato, o que faz muito sentido em uma sociedade que todos aparecem como competidores no mercado para poderem sobreviver.
Lógica absurda que nos mata por dentro e nos impede de exercermos nossas melhores qualidades e desenvolveremos nossas potências.
São Paulo é apenas o exemplo clássico destes urbanóides solitários que dançamos no Our Love.
A coisa tem se alastrado.
De qualquer maneira, como tudo que é novo nasce do velho, mesmo dançando toda essa sociedade ferro-velho nos sentimos vivos na Flaskô ao lado de gente que quer brotar o novo a partir da própria barriga.
Segue o vídeo de um camarada sobre a Flaskô.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
A gente precisa aprender a receber os nãos da vida.
O parque da Luz é nosso amigo íntimo.
Conhecido por suas prostitutas velhas, pela moda de viola aos fins de semana e pela variedade de etnias que cercam a região, tornou-se nosso parque favorito para intervenções e principalmente para observar as pessoas com alguma tranquilidade.
Foi basicamente o que fizemos hoje: observar. Já fizemos isso antes e é impressionante como a vida é que é de fato bela. Eu, particularmente, fiquei com a sensação clara da pequeneza da arte diante da vida, própria.
20 minutos. 20 minutos de caminhada sozinhos pelo parque, cada um na sua na tentativa de se abrir tanto para os estímulos que vinham de fora, do que observávamos com todos nossos sentidos e abertura também para deixar vir nosso estado, que - desculpem o comentário - era bastante calamitoso.
Depois deste tempo nos encontramos novamente e compartilhamos as experiências. Hoje não foi um dia tão estético quanto o anterior no parque. Mas a vida continua sendo mais, sem dúvida.
Durante a minha caminhada fui abordada como puta. Foi bastante angustiante. Senti que poderia ser agredida a qualquer momento. Não por conta da qualidade da abordagem, mas simplesmente por ter sido abordada. A mera sensação de ver o outro tratando seu próprio corpo como um objeto, uma coisa inanimada sem vontade própria foi absolutamente agressiva pra mim.
Vimos muita tristeza e alegria, como sempre. Olhares melancólicos, muita gente sozinha, as putas, as crianças e quantas as histórias se cruzando ali. Parece que as pessoas têm espectros atrás delas, como se todo seu passado que se condensa naquele momento fosse uma sombra, um rastro que as segue na medida em que elas caminham, fazendo um grande desenho no chão do parque.
As crianças, que trazem um misto de esperança - por mais banal que seja dizer isso - e ao mesmo tempo um peso, e de fato não sabemos que tipo de mundo herdarão - novamente por mais banal que seja dizer isso.
Ao final, tiramos umas fotos. As árvores lá são lindas, parecem mulheres grandes e a luz estava muito bonita e quentinha.
No parque da luz é possível tomar um sol gostoso mesmo sem poder pisar na grama, pois o guardinha vem advertir.
Indo embora ainda vimos um homem se barbeando em pleno parque, com um espelhinho, garrafinha d'água, uma mala grande, tudo disposto de maneira organizada sobre um banco na sombra. Esta imagem selou nosso encontro. Eu vi tristeza, a Na também, o Ed não... não tentamos chegar à qualquer conclusão, a vida é de fato mais.
Depois que fomos embora, fui pro carro. Uma mulher chorando, desesperada veio me vender qualquer coisa. Dei um trocado e desejei sorte. Ela disse que ninguém se aproximava dela por conta de que ela não estava arrumada, que estava suja e enfim... me despedi dela.
Às vezes a vida é tão mais que escapa.