quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Primeiro Passo

Hoje fui assistir ao solo da Paula Pi, no programa Primeiros Passos, do sesc Pompéia.
Cheguei atrasada e acabei não vendo o solo da querida Paula, vi o segundo trabalho, com o qual não me identifiquei muito, mas é sempre bom respeitar as inciativas alheias, todos sabemos o quanto é difícil produzir alguma coisa e se expor.

Gostei mesmo do debate ao final.

O Primeiros Passos é para novos criadores, novas cias mostrarem seu trabalho: 2 trabalhos por noite com um debatedor convidado, sob a curadoria de Angela Nolf, e o Our Love será apresentado em Dezembro por lá, ao que tudo indica, e a Clarissa, amiga nossa mega querida e uma puta artista, vai me substituir. O trabalho estará seguramente em boas mãos.

O que me fez escrever no blog sobre hoje foi o debate, em determinado momento comentou-se sobre o isolamento ao se produzir dança e arte em geral. Ou seja, com quem estamos conversando e dialogando sobre arte, sobre o fazer em dança e claro sobre o mundo?

Todos nós agora temos que produzir a toque de caixa, dançar em inúmeros grupo, e o processo criativo vira algo curto, se produz para se manter produzindo e o que se quer dizer ou expressar fica muitas vezes de lado porque a vida (e principalmente as contas) urgem.

Discutiu-se a dificuldade de fazer parcerias, de encontrar espaços e instrumentos para ampliar nossos horizontes artísticos para além do que já conhecemos e que na impossibilidade de lidarmos com isso, ou na falta de oportunidade de pesquisar com mais afinco (porque pesquisar demanda tempo e verba), acabamos nos fixando nos nossos umbigos e produzindo sozinhos (claro que nem sempre é assim, e é evidente que em muitos casos trata-se de uma opção consciente e necessária, como no caso da própria Paula).

Mas se nosso universo vai ficando restrito ao que e a quem já conhecemos, como podemos expressar o mundo em nossa dança? Como podemos nos comunicar e compartilhar se não saímos do nosso universo e nos abrimos de fato para outras coisas, para a diferença?

A arte fica meio sem sentido para mim se ela não compartilha e não comunga com os outros.

Está muito difícil mesmo encontrar parceiros. mas não apenas para fazer arte. Sinto que é geral, sinto que a dificuldade de encontrar companheiros na vida se reflete na nossa dificuldade de fazermos parcerias na arte.
E essa não é uma constatação de ordem moral. Não acredito que as pessoas não fazem simplesmente porque não querem, acredito que esteja de fato muito complicado, dado a atual configuração de nossas vidas.

Mais uma vez nos deparamos com o isolamento e com a fragmentação, temas do nosso espetáculo, mas em uma outra dimensão.

Para mim não existe arte sem troca, sem investigação , sem curiosidade pelo mundo e acessamos o mundo através de nossas relações com o outro, mesmo quando o outro é um livro, uma foto, um filme, uma peça, uma música ou um poema, pois afinal, que são essas coisas senão outros seres humanos dizendo, através de inúmeras linguagens, o que sentem, vivem e pensam?

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