segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Como foi o Our Love na Mostra Luta?




Maravilhoso.

Foi simplesmente sensacional dançar pra galera da Mostra e depois debater sobre arte, tema que custa tão caro à esquerda normalmente. Quase nunca se discute o tema com a sinceridade e o desapego necessário para tal.

Fiquei muito feliz e muito cheia..nem sei dizer do quê... A descriçao mais próxima que posso dar é aquela conversa típica de bailarinos (e acho que de atores também) pós espetáculo: Nossa, hoje aconteceu! Rolou!

Isso é o máximo que posso aproximar porque foi muito mais do que uma apresentaçao que deu certo, que tudo fluiu e a emoçao deu as caras. Foi muito mais mesmo...


O que aconteceu ali, naquele sábado, dia 23 de Outubro de 2010, confirma ainda mais a minha necessidade e a minha vontade de dançar.


Se conectar com os outros por uma outra via, e ver a possibilidade de se comunicar de fato sem uma palavra sequer. Sentir que estamos conectados pelo umbigo e que compartilhamos o mesmo mundo, com suas alegrias e dores...

Ainda que de maneira singular, todos sentimos o tal do universal, o tal do gênero humano.

Pode soar pretensioso, mas quando danço sinto isso na minha pele, dentro da minha barriga, que faço parte de algo muito maior que eu mesma. A dança tem seguramente um poder de conexao gigante, inclusive já li isso em um livro do Garaudy, que se chama Dançar a Vida... ele fala deste papel da dança para unificar o povo para uma colheita, uma guerra, preparar para a morte ou para um nascimento... vale a pena ler, é lindo demais!

Bom, mas voltando pra Mostra.

Quando terminamos de dançar eu estava muito grata por aquilo e daí veio o debate.
Senti muita disposiçao das pessoas em conversar sobre arte, sobre o que seria arte revolucionária, sobre qual o papel da arte... Vi pessoas realmente dispostas a compartilhar suas dúvidas, suas opinioes, seus conhecimentos sem vaidade. Nao sei se é porque estou acostumada com o ambiente acadêmico e com o circuito de mercado da arte paulistana, mas me encantou demais ver uma conversa verdadeiramente franca entre as pessoas...
Deste modo há troca e nao apenas a aparência de uma.

Senti também que devemos criar mais espaços para garantir esta discussao e seguir acumulando sobre o tema.

Para completar, recebemos muito carinho das pessoas, comentários sobre o trabalho, sobre as cenas e sobre o debate. Isso é impagável. Todos muito queridos e generosos, mas queria registrar umas pessoas em particular:

O Cássio, que conheci através do Jeff por sua poesia e que fez uma intervençao fantástica e verdadeira no debate.

O Latuff, que teria tudo para ser uma pessoa distante ou vaidosa, foi muito carinhoso e generoso conosco e nao apenas conosco, com todo o pessoal da Mostra. Nao me esquecerei tao cedo de sua linda disposiçao, servindo salgadinho a todo o sarau do domingo. Que pessoa bonita!!!

O Joao Zinclar, que tirou fotos lindas do espetáculo e veio mostrá-las tao carinhosamente. Nem sei como agradecer.
E finalmente, e principalmente, o Orestes, que me emocionou demais e me fez flutuar com sua sinceridade quando conversamos no domingo no fim do sarau. Receber este incentivo, essa confiaça no nosso trabalho nos recompensa demais.
Para ele deixo um recado: Orestes, você também tirou minhas palavras! E eu, que também sou tao eloquente...
Bom, o post já está longo demais.


Queria apenas agradecer enormemente ao Coletivo de Comunicadores Populares, especialmente o pessoal da Camará e a Ana.
Esses quatro camaradas foram de fato um presente na minha vida neste ano.


Deixo aqui os sites pra quem quiser conferir:





PS: Estou sem til no computador que estou usando, por isso tudo está sem acento.

















quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Arte- qual é a dela?

O Rafa que fazia francês comigo semestre passado, acompanha sempre o blog e reclama quando eu não o atualizo.

Pois bem, ele leu o último texto, o "Primeiro Passo", gostou e me indicou um vídeo, de um professor dele lá da FAU- USP, Agnaldo Farias dando uma palestra sobre arte.

Ele me alertou que o cara é muito estrela, e eu reitero: é mesmo! Mas ele é muito didático, fala muito bem...
Achei que o cara tem uma visão um pouco idealizada sobre a arte, mas ainda assim, ele traz questões interessantes e faz pensar.

Eu não compartilho da visão de que a arte muda o mundo, e de que ela é mais que a vida, ao contrário, eu acho sempre que a vida é mais e que a arte é maravilhosa quando reflete a primeira, não apenas na sua aparência, mas em todos seus desdobramentos.

A arte pode desvelar muitas coisas e tem mesmo um lance de ruptura forte, te faz ver e sentir as coisas por um outro âmbito e é claramente um fator humanizador da humanidade por excelência.

Soa estranho dizer humanizador da humanidade, né?
Mas é isso aí mesmo...

Afirmo isso na direção de que a humanidade produziu sua própria história e com isso também se auto-produziu, assim ela se humaniza ao longo da sua história, em um movimento ininterrupto, mas não necessariamente linear - eu arriscaria que dizer desigual e combinado para o desespero de alguns...rs.

Eu vejo a arte com um papel fundamental neste processo, de conexão entre os homens, de tornar de todos a visão ou a sensação que um único indivíduo tem sobre a vida que inclusive foi formado por este mesmo todo, mas que pode trazer uma interpretação nova, fazer um conexão nova entre as coisas aparentemente desconexas.

Arte para mim faz sentido quando se quebra a aparência, quando se quebra a norma e se aponta para o sentido mais progressivo possível daquele momento e daquele espaço no qual o artista está envolto. Tem tudo a ver com emancipação das nossas amarras e sempre com a imaginação e o forte desejo de que as coisas podem ser melhores, muito melhores do que são.

Para todos.

Como eu comentei com a Ana, acho que a arte é um lugar de potência, quando ela é crítica (ainda que eu eu tenda a achar que Arte é sempre crítica, e isso nada tem a ver com a temática escolhida pelo artista e nem com sua linguagem e óbvio tb que quando digo Arte não incluo as mercadorias da indústria cultural, se bem que o debate aqui é longo, enfim) mesmo que não aponte saídas, está subentendido sua crença numa possibilidade de algo melhor.

Depois de tanto lero-lero, segue o vídeo do tal professor, controverso em alguns momentos, mas interessante sem dúvida, obrigada Rafa:


quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Primeiro Passo

Hoje fui assistir ao solo da Paula Pi, no programa Primeiros Passos, do sesc Pompéia.
Cheguei atrasada e acabei não vendo o solo da querida Paula, vi o segundo trabalho, com o qual não me identifiquei muito, mas é sempre bom respeitar as inciativas alheias, todos sabemos o quanto é difícil produzir alguma coisa e se expor.

Gostei mesmo do debate ao final.

O Primeiros Passos é para novos criadores, novas cias mostrarem seu trabalho: 2 trabalhos por noite com um debatedor convidado, sob a curadoria de Angela Nolf, e o Our Love será apresentado em Dezembro por lá, ao que tudo indica, e a Clarissa, amiga nossa mega querida e uma puta artista, vai me substituir. O trabalho estará seguramente em boas mãos.

O que me fez escrever no blog sobre hoje foi o debate, em determinado momento comentou-se sobre o isolamento ao se produzir dança e arte em geral. Ou seja, com quem estamos conversando e dialogando sobre arte, sobre o fazer em dança e claro sobre o mundo?

Todos nós agora temos que produzir a toque de caixa, dançar em inúmeros grupo, e o processo criativo vira algo curto, se produz para se manter produzindo e o que se quer dizer ou expressar fica muitas vezes de lado porque a vida (e principalmente as contas) urgem.

Discutiu-se a dificuldade de fazer parcerias, de encontrar espaços e instrumentos para ampliar nossos horizontes artísticos para além do que já conhecemos e que na impossibilidade de lidarmos com isso, ou na falta de oportunidade de pesquisar com mais afinco (porque pesquisar demanda tempo e verba), acabamos nos fixando nos nossos umbigos e produzindo sozinhos (claro que nem sempre é assim, e é evidente que em muitos casos trata-se de uma opção consciente e necessária, como no caso da própria Paula).

Mas se nosso universo vai ficando restrito ao que e a quem já conhecemos, como podemos expressar o mundo em nossa dança? Como podemos nos comunicar e compartilhar se não saímos do nosso universo e nos abrimos de fato para outras coisas, para a diferença?

A arte fica meio sem sentido para mim se ela não compartilha e não comunga com os outros.

Está muito difícil mesmo encontrar parceiros. mas não apenas para fazer arte. Sinto que é geral, sinto que a dificuldade de encontrar companheiros na vida se reflete na nossa dificuldade de fazermos parcerias na arte.
E essa não é uma constatação de ordem moral. Não acredito que as pessoas não fazem simplesmente porque não querem, acredito que esteja de fato muito complicado, dado a atual configuração de nossas vidas.

Mais uma vez nos deparamos com o isolamento e com a fragmentação, temas do nosso espetáculo, mas em uma outra dimensão.

Para mim não existe arte sem troca, sem investigação , sem curiosidade pelo mundo e acessamos o mundo através de nossas relações com o outro, mesmo quando o outro é um livro, uma foto, um filme, uma peça, uma música ou um poema, pois afinal, que são essas coisas senão outros seres humanos dizendo, através de inúmeras linguagens, o que sentem, vivem e pensam?

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Our Love na Mostra Luta


No dia 23 de outubro às 16h é a vez do Our Love na Mostra Luta, em Campinas - SP.

Acho realmente que a apresentação promete pois é sempre bom estar entre pessoas queridas e, pra mim em particular, por ser a última apresentação antes de viajar pra longe durante 3 meses...ou mais.

Esta é a terceira edição da Mostra que é organizada pelo Coletivo de Comunicadores Populares e tem como objetivo ser um canal de comunicação popular e, nas palavras deles mesmos: "É um espaço para expressão de todas e todos que não tem acesso aos meios de difusão de suas lutas, idéias e ideais e que buscam resistir, criticar ou mesmo romper com esse sistema de exploração e opressão".

O centro da programação são os vídeos, mas tem poesia e quadrinhos tb. E dança, claro.
Os Intermitentes serão os "estreadores" da modalidade junto com o outro grupo da Natália, lá da Unicamp.

Rolam também algumas mesas de debates. Eu fui à mesa deste domingo, Mulheres unidas na luta e na vida, que a Ana, amiga muito querida coordenou muito bem. Foi muito legal ver a sala cheia e participar do debate, valeu muito a pena.

Legal dar uma conferida: www.mostraluta.org

Talvez paire no ar a pergunta: Mas que raios tem a ver o Our Love com a Mostra Luta?
Bom, a minha resposta é: a maneira patológica e absolutamente estranhada como nos relacionamos hoje não seria efeito direto de um modo de produção da vida que não está assentado nas necessidades humanas?

Fica aqui o convite para a Mostra e para o espetáculo.

Apresentação do CEU Perus

Hoje, dia 19 de outubro, aniversário do Ed, todo o coletivo acabou ganhando um presente.
Dançamos o Our Love no CEU Perus e além do lugar ser incrível, muito bem organizado e com uma ótima estrutura, as pessoas que nos assistiram e o mediador foram sensacionais.
Como é bom sentir o reflexo da sua dança nas pessoas, sentir que chegou de fato nelas e que elas reinventaram o espetáculo de acordo com suas histórias pessoais.
Muito gostoso sentir um carinho despretensioso, uma curiosidade verdadeira das pessoas...
É muito bom dançar com e para gente de carne e osso e dialogar de igual pra igual..

Me senti muito alimentada, muito viva. Eu, que tinha vindo de um dia e uma noite delicados, me senti nova e mais uma vez, redescobri o porquê danço.

Queria agradecer imensamente ao Rob, que nos fez o convite.
Ao Péricles, que faz um trabalho muito bacana mesmo.

E ao Fagundes, a Lúcia (adoro esse nome Lúcia), ao Lucas, e todos os outros que estavam mas que eu não tive a oportunidade de perguntar o nome.


Assim vale a pena!!

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Esta tal de dança contemporânea

Estou fazendo uma disciplina da pós em Artes na Unicamp, e a professora propôs que a gente apresentasse em cerca de uma hora um tema específico de acordo com o que vivemos e fazemos.
Eu fiquei encarregada, juntamente com a Clarissa, minha cara amiga que é tão desligada quanto eu e até agora não sabe onde fica o xerox, de falar sobre dança contemporânea.
OK. Até aí, tudo certo.

A tragédia foi perceber que eu não sei falar nada sobre aquilo que eu faço.
Me dei conta de que eu não sabia mesmo, e continuo sabendo muito pouco sobre dança contemporânea, em termos teóricos (práticos tb, mas menos...rs)
O que eu sempre fiz foi dançar, e atualmente com o Coletivo, passei a pesquisar, mas sempre na esfera da prática.

Bom, achei este pequeno artigo, que tem algumas definições básicas.
Ao menos é um pontapé inicial.

Segue o link do texto, que é curtinho: Esta tal de dança contemporânea

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Leon

Estou lendo um livro do Daniel Bensaid sobre os trotskismos, e eu, que já admirava muito essa figura do século XX, passei a admirá-lo ainda mais.

A citação é do Trotsky e no fim quem comenta é o Bensaid:

"A humanidade ainda não conseguiu racionalizar a sua história. É um fato. Não conseguimos racionalizar os nossos corpos e os nossos espíritos. A psicanálise tenta ensinar-nos a harmonizá-los. Sem grande sucesso, até o presente. A questão não é de saber se podemos esperar a perfeição absoluta da sociedade. Após cada grande passo a frente, a humanidade faz um desvio, e mesmo um grande passo atrás. Lamento-o, mas não sou responsável [risos]. mesmo após a revolução mundial, é bem possível que a humanidade esteja muito cansada. Para uma parte dos homens e dos povos, uma nova religião pode mesmo surgir, mas um grande passo não terá ficado por dar." Este combate solitário num jardim perdido dos subúrbios da cidade do México, é talvez o mais importante a seus olhos. Outubro podia ter tido lugar sem ele, talvez mesmo sem Lenin, já que enquanto a história avança na boa direção, ela encontra os homens de quem tem necessidade. É na derrota que nos tornamos insubstituíveis. Nos ventos contrários, os justos tornam-se raros.'

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

2+2=5

Esse é o nome da música do Radiohead que embalou nosso último ensaio no domingo à noite.
Sim. Domingo à noite. Sábados à noite viraram nossos dias de ensaio graças a nossa super compatibilidade de horários.
Diga-se de passagem, ensaios muito bons. De repente a coisa começa a andar, as ideais começam a aparecer. E o prazer de ensaiar também.
Para mim o Desculpe o Transtorno, que é nosso projeto de criação atual, tem muito da opressão da vida cotidiana e muito da nossa aceitação com relação à ela.
A sensação de desunião, e não apenas desunião, mas também de competição e de sadismo que perpassa as relações e sua aceitação desta situação como natural.
As imagens que vêm são muitas: a mecanização da vida, a esterilidade, a miséria não apenas material, a diferença entre sanidade e loucura, a resistência e sua possibilidade efetiva de existir, o esvaziamento da vida de maneira geral.
É uma necessidade para mim dançar isso, e é maravilhoso poder dançar e criar junto com outras pessoas que pensam e sentem essa pressão da vida que levamos.

Segue o vídeo do música, que ilustra bem o sentimento.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Máquina Ruim

Vi este filme, O Expresso da Meia-Noite há muitos anos pois meu pai vivia dizendo o quanto tinha sido marcado por ele.
Fiquei muito impressionada e ele é muito bom mesmo.
Lembro de não ter entendido de primeira a cena que hoje mais me comove no filme e de ter perguntado ao meu pai o que ela significava..
Bom, não direi a resposta dele porque as imagens, a partir do minuto 2:48 mais ou menos falarão.
Inclusive acho que as falas na cena são redundantes pois as imagens são mais fortes.

Tudo bem. E o que isso tem a ver com os intermitentes, com a dança, enfim?
Na minha opinião essa cena - entre 2:48 até 4 minutos mais ou menos- diz muito sobre a pesquisa do coletivo, e mais, arrisco dizer sobre o que somos e o que queremos ser não apenas como artistas mas como gente mesmo.

Bom, no que a gente tem pesquisado agora, a questão do trabalho e da alienação do homem de sua própria atividade criativa e criadora, vem muito a calhar, a imagem dos mortos-vivos, e a questão de quem está louco e de quem é são.
A reprodução da vida cotidiana, ainda que em um grau seja necessária, sem reflexão se transforma num aprisionamento.
Eu me sinto aprisionada com esses moldes pré-estabelecidos da forma de viver.
Imagino que o Ed e a Natália também e espero seus depoimentos sobre isso.
O aprisionamento vem tanto se vc cumpre tudo à risca quanto quando vc tenta resistir e não consegue dialogar com ninguém.
O mundo parece querer te expelir e começa a pulsar, para que você, ESTRANHO, seja excretado. Ou ainda ele sussurra ao pé do ouvido: adapte-se, adapte-se.

Pra terminar: recebi recentemente um vídeo de um amigo muito querido, que sabendo da pesquisa do coletivo me mandou um trecho de coreografia do Philippe Decouflé chamada CODEX3, assim que eu vi lembrei do Expresso e da cena que me marcou.

Eis aqui os trechos:



A cena principal é a partir dos dois minutos e quarenta e cinco segundos.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Operário em construção

Foi em um sebo muito bom perto da Maria Antônia que vi um livro do Vinicius de Moraes com este nome. Abri e procurei pelo poema.
Achei lindo. Levei para o Ed e para a Na, ele não conhecia, ela sim e disse que o professor do cursinho sempre o recitava.
O poema faz parte da nossa próxima pesquisa.

O Operário em Construção
Vinicius de Moraes

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– "Convençam-no" do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

Our Love na Flaskô

No último dia 28 dançamos o Our Love na Flaskô.
A Flaskô é uma fábrica ocupada pelos trabalhadores desde 2003, quando foi decretada falência por conta de salários atrasados e falta de pagamento dos encargos trabalhistas.
É um espaço de luta dos trabalhadores.

Neste fim de semana teve o festival de arte e cultura na Flaskô, para o qual fomos convidados e adoramos participar.

É sempre muito gratificante dançar pra gente de verdade, com toda a generosidade e desprendimento necessários para resistir e lutar por um mundo melhor nas condições absolutamente adversas que nos encontramos hoje.

Eu fiquei particularmente satisfeita com a atenção das pessoas - e gostaria que a Na e o Ed tb colocassem suas impressões - ao nosso trabalho. Senti que o Our Love dialoga e que as pessoas se sentem movidas pelas nossas questões levantadas em cena.
Antes eu me questionava se a nossa temática era demasiadamente urbanóide, acho que sim, ela é bem particular e paulistana, mas sinto ao mesmo tempo que esse estranhamento nas relações tem se generalizado. O outro é cada vez mais distante, estéril e hermético...
O medo parece dominar de vez, medo de entrega e de contato, o que faz muito sentido em uma sociedade que todos aparecem como competidores no mercado para poderem sobreviver.
Lógica absurda que nos mata por dentro e nos impede de exercermos nossas melhores qualidades e desenvolveremos nossas potências.

São Paulo é apenas o exemplo clássico destes urbanóides solitários que dançamos no Our Love.
A coisa tem se alastrado.

De qualquer maneira, como tudo que é novo nasce do velho, mesmo dançando toda essa sociedade ferro-velho nos sentimos vivos na Flaskô ao lado de gente que quer brotar o novo a partir da própria barriga.

Segue o vídeo de um camarada sobre a Flaskô.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A gente precisa aprender a receber os nãos da vida.

Essa foi a frase do Edson pra Natália hoje, no parque da luz, lugar no qual o ilustríssimo Coletivo da Artistas Intermitente Abismo de Sonhos costuma ensaiar quando não consegue outro espaço.

O parque da Luz é nosso amigo íntimo.
Conhecido por suas prostitutas velhas, pela moda de viola aos fins de semana e pela variedade de etnias que cercam a região, tornou-se nosso parque favorito para intervenções e principalmente para observar as pessoas com alguma tranquilidade.
Foi basicamente o que fizemos hoje: observar. Já fizemos isso antes e é impressionante como a vida é que é de fato bela. Eu, particularmente, fiquei com a sensação clara da pequeneza da arte diante da vida, própria.
20 minutos. 20 minutos de caminhada sozinhos pelo parque, cada um na sua na tentativa de se abrir tanto para os estímulos que vinham de fora, do que observávamos com todos nossos sentidos e abertura também para deixar vir nosso estado, que - desculpem o comentário - era bastante calamitoso.
Depois deste tempo nos encontramos novamente e compartilhamos as experiências. Hoje não foi um dia tão estético quanto o anterior no parque. Mas a vida continua sendo mais, sem dúvida.
Durante a minha caminhada fui abordada como puta. Foi bastante angustiante. Senti que poderia ser agredida a qualquer momento. Não por conta da qualidade da abordagem, mas simplesmente por ter sido abordada. A mera sensação de ver o outro tratando seu próprio corpo como um objeto, uma coisa inanimada sem vontade própria foi absolutamente agressiva pra mim.
Vimos muita tristeza e alegria, como sempre. Olhares melancólicos, muita gente sozinha, as putas, as crianças e quantas as histórias se cruzando ali. Parece que as pessoas têm espectros atrás delas, como se todo seu passado que se condensa naquele momento fosse uma sombra, um rastro que as segue na medida em que elas caminham, fazendo um grande desenho no chão do parque.
As crianças, que trazem um misto de esperança - por mais banal que seja dizer isso - e ao mesmo tempo um peso, e de fato não sabemos que tipo de mundo herdarão - novamente por mais banal que seja dizer isso.
Ao final, tiramos umas fotos. As árvores lá são lindas, parecem mulheres grandes e a luz estava muito bonita e quentinha.


No parque da luz é possível tomar um sol gostoso mesmo sem poder pisar na grama, pois o guardinha vem advertir.
Indo embora ainda vimos um homem se barbeando em pleno parque, com um espelhinho, garrafinha d'água, uma mala grande, tudo disposto de maneira organizada sobre um banco na sombra. Esta imagem selou nosso encontro. Eu vi tristeza, a Na também, o Ed não... não tentamos chegar à qualquer conclusão, a vida é de fato mais.
Depois que fomos embora, fui pro carro. Uma mulher chorando, desesperada veio me vender qualquer coisa. Dei um trocado e desejei sorte. Ela disse que ninguém se aproximava dela por conta de que ela não estava arrumada, que estava suja e enfim... me despedi dela.
Às vezes a vida é tão mais que escapa.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

É o Amor uma Arte?

Extraído do livro "A arte de Amar", de Eric Fromm
Se o é, exige conhecimento e esforço. Ou será o amor uma sensação agradável, que se experimente por acaso, algo em que se “cai” quando se tem sorte? Este livrinho baseia-se na primeira hipótese, embora indubitavelmente a maioria das pessoas, hoje, acredite na segunda. Não é que se pense que o amor não é importante. Todos sentem fome dele; assistem a infindável número de filmes sobre história de amor, felizes e infelizes, ouvem centenas de sovadas canções que falam de amor e, contudo, quase ninguém pensa haver alguma coisa a respeito do amor que necessite ser aprendida.

Essa atitude peculiar baseia-se em várias premissas que, isoladas ou combinadas, tendem a sustentá-la. A maioria das pessoas vê o problema do amor, antes de tudo, como o de ser amado, em lugar do de amar, da capacidade de alguém para amar. Assim, para essas pessoas o problema é como serem amadas, como serem amáveis. Na busca desse alvo, seguem diversos caminhos. Um deles, especialmente utilizado pelos homens, é ter sucesso, ter todo o poder e riqueza que a sua posição social permitir. Outro, especialmente utilizado pelas mulheres, é tornarem-se atraentes, pelo cuidado com o corpo, o vestuário, etc. Outros modos de se fazer alguém atraente, usados tanto por homens como por mulheres, são o desenvolvimento de maneiras agradáveis, conversação interessante, a prestatividade, a modéstia, a inofensividade. Muitas das maneiras de uma pessoa se tornar amável são as mesmas empregadas para obter sucesso, “para conquistar amigos e influenciar os outros”. Na realidade, o que a maioria dos de nossa cultura considera ser amável é, essencialmente, uma mistura de ser popular e possuir atração sexual.

Segunda premissa por trás dessa atitude de que nada há a aprender a respeito do amor é a idéia de que o problema do amor é o problema de um objeto e não o de uma faculdade. Pensa-se que amar é simples, mas que é difícil encontrar o objeto certo a amar — ou pelo qual ser amado. Tal atitude tem muitas razões enraizadas no desenvolvimento da sociedade moderna. Uma dessas razões é a grande mudança ocorrida no século XX com relação à escolha de um “objeto de amor”.
Na época vitoriana, como em muitas culturas tradicionais, não era o amor principal-mente uma experiência pessoal espontânea que a seguir pudesse levar ao casamento. Ao contrário, o casamento se contratava por convenção — ou pelas famílias respectivas, ou por um agente matrimonial, ou sem o auxílio desses intermediários; consumava-se na base de considerações sociais e julgava-se que o amor se desenvolveria depois de efetuado o casamento. Nas últimas poucas gerações,! o conceito de amor romântico tornou-se quase universal no mundo do Ocidente. Nos Estados Unidos, ainda que considerações de natureza convencional não estejam de todo ausentes, vasto número das pessoas anda à busca do “amor romântico”, da experiência pessoal de amor que acabe por levar ao matrimônio. Esse novo conceito de liberdade no amor deve ter acentuado grandemente a importância do objeto em contraste com a importância da função.

Relaciona-se estreitamente com esse fator outro aspecto característico da cultura contemporânea. Toda a nossa cultura se baseia no apetite da compra, na idéia de uma troca mutuamente favorável. A felicidade do homem moderno consiste na sensação de olhar as vitrinas das lojas e em comprar tudo quanto esteja em condições de comprar, quer a dinheiro, quer a prazo.

Ele (ou ela) encara as pessoas de maneira semelhante. Para o homem, uma mulher atraente (e, para a mulher, um homem atraente), eis o lucro a obter. “Atraente” vem a significar, normal-mente, um bom fardo de qualidades que sejam populares e muito procuradas no mercado da personalidade. O que torna especificamente unia pessoa atraente depende da moda da época, tanto física como mentalmente. Na década de 1920, uma moça que bebesse e fumasse, fosse decidida e sensual, era atraente; hoje, a moda pede mais domesticidade e recato. No fim do século XIX no começo do atual, um homem tinha de ser agressivo e ambicioso, para ser “mercadoria” atraente: hoje, tem de ser sociável e tolerante. De qualquer modo, a sensação de cair enamorado só se; desenvolve normalmente com relação aos artigos humanos que estejam ao alcance das possibilidades de transação de alguém. Saio para uma troca: o objeto deve ser desejável, sob o aspecto de seu valor social, e ao mesmo tempo deve desejar-me, levando em consideração minhas potencialidades e recursos expostos e ocultos. Assim, duas pessoas se apaixonam quando sentem haver encontrado o melhor objeto disponível no mercado, considerando as limitações de seus próprios valores cambiais.

Muitas vezes, como na compra de um imóvel, as potencialidades ocultas que possam ser desenvolvidas desempenham considerável papel na transação. Numa cultura em que prevalece a orientação mercantil, e em que o sucesso material é o valor predominante, pouca razão há para surpresa no fato de seguirem as relações do amor humano os mesmos padrões de troca que
governam os mercados de utilidades e de trabalho.

O terceiro erro que leva à idéia de nada haver para ser aprendido a respeito do amor consiste na confusão entre a experiência inicial de “cair” enamorado e o estado permanente de estar amando, ou, como poderíamos dizer melhor, de “permanecer” em amor. Se duas pessoas estranhas uma à outra, como todos somos, subitamente deixam ruir a parede que as separa e se sentem próximas, se sentem uma só, esse momento de unidade é uma das mais jubilosas e excitantes experiências da vida. É tudo o que há de mais admirável e miraculoso para quem tem estado fechado em si, isolado, sem amor. Esse milagre de súbita intimidade é muitas vezes facilitado quando se combina, ou se inicia, com a atração sexual e sua satisfação. Contudo, tal tipo de amor, por sua própria natureza, não é duradouro. As duas pessoas tornam-se bem conhecidas, sua intimidade perde cada vez mais o caráter miraculoso, e seu antagonismo, suas decepções, seu mútuo fastio acabam por matar tudo quanto restava da excitação inicial. Entretanto, no começo, elas de nada disso sabem; de fato, tomam a intensidade da paixão, a “loucura” que sentem uma pela outra, como prova da intensidade de seu amor, quando isso apenas provaria o grau de sua anterior solidão.

Essa atitude — a de que nada é mais fácil do que amar — tem continuado a ser a idéia predominante a respeito do amor, apesar da esmagadora prova em contrário. Dificilmente haverá qualquer atividade, qualquer empreendimento que comece com tão tremendas esperanças e expectativas e que, contudo, fracasse com tanta regularidade, quanto o amor. Se isso se desse com qualquer outra atividade, todos estariam ansiosos por saber das razões do fracasso, por aprender como se poderia fazer melhor — ou então desistiriam de tal atividade. Como esta última alternativa é impossível no caso do amor, parece haver apenas um meio adequado de superar a falência amorosa: examinar as razões dessa falência e passar a estudar
significação do amor.

O primeiro passo a dar é tornar-se consciente de que o amor é uma arte, assim como viver é uma arte; se quisermos aprender como se ama, devemos proceder do mesmo modo por que agiríamos se quiséssemos aprender qualquer outra arte, seja a música, a pintura, a carpintaria, ou a arte da medicina ou da engenharia. Quais são os passos necessários para aprender qualquer arte?

O processo de aprendizado de uma arte pode ser adequadamente dividido em duas partes: uma, o domínio da teoria: outra, o domínio da prática. Se eu quiser aprender a arte da medicina, devo primeiro conhecer os fatos a respeito do corpo humano e de várias doenças. Quando tiver todo esse conhecimento teórico, de modo. algum serei competente na arte da medicina.

Só me tornarei mestre nessa arte depois de grande prática, até que os resultados de meu conhecimento teórico e os de minha prática acabem por mesclar-se numa só coisa: em minha intuição, essência do domínio de qualquer arte. Além, entretanto, de aprender a teoria e a prática, há um terceiro fator necessário para que me tome mestre em qualquer arte: o domínio da arte deve ser questão de extrema preocupação; nada deve existir no mundo de mais importante do que essa arte. Isto é verdade quanto à música, à medicina, à carpintaria — e quanto ao amor. E talvez aí esteja a resposta à indagação sobre os motivos pelos quais a gente de nossa cultura tão raramente tenta aprender essa arte, a despeito de seus evidentes fracassos: apesar da profundamente enraizada avidez pelo amor, quase tudo mais é considerado mais importante do que o amor: o sucesso, o prestígio, o dinheiro, o poder. Quase toda a nossa energia é utilizada em aprender como alcançar esses alvos e quase nenhuma é dedicada a aprender a arte de amar.

Dar-se-á que só se considerem dignas de ser vendidas aquelas coisas com as quais se pode obter dinheiro ou prestígio, e que o amor, que “só”' traz proveito à alma, mas não é proveitoso no sentido moderno, seja um luxo, em que não tenhamos o direito de gastar muita energia? Seja como for, o debate em que vamos entrar tratará a arte de amar no sentido das seguintes divisões: primeiramente, discutirei a teoria do amor — e isto compreenderá a maior parte do livro; em seguida, discutirei a prática do amor — o pouco que pode ser dito a respeito de prática, neste como em qualquer outro campo.