O Rafa que fazia francês comigo semestre passado, acompanha sempre o blog e reclama quando eu não o atualizo.
Pois bem, ele leu o último texto, o "Primeiro Passo", gostou e me indicou um vídeo, de um professor dele lá da FAU- USP, Agnaldo Farias dando uma palestra sobre arte.
Ele me alertou que o cara é muito estrela, e eu reitero: é mesmo! Mas ele é muito didático, fala muito bem...
Achei que o cara tem uma visão um pouco idealizada sobre a arte, mas ainda assim, ele traz questões interessantes e faz pensar.
Eu não compartilho da visão de que a arte muda o mundo, e de que ela é mais que a vida, ao contrário, eu acho sempre que a vida é mais e que a arte é maravilhosa quando reflete a primeira, não apenas na sua aparência, mas em todos seus desdobramentos.
A arte pode desvelar muitas coisas e tem mesmo um lance de ruptura forte, te faz ver e sentir as coisas por um outro âmbito e é claramente um fator humanizador da humanidade por excelência.
Soa estranho dizer humanizador da humanidade, né?
Mas é isso aí mesmo...
Afirmo isso na direção de que a humanidade produziu sua própria história e com isso também se auto-produziu, assim ela se humaniza ao longo da sua história, em um movimento ininterrupto, mas não necessariamente linear - eu arriscaria que dizer desigual e combinado para o desespero de alguns...rs.
Eu vejo a arte com um papel fundamental neste processo, de conexão entre os homens, de tornar de todos a visão ou a sensação que um único indivíduo tem sobre a vida que inclusive foi formado por este mesmo todo, mas que pode trazer uma interpretação nova, fazer um conexão nova entre as coisas aparentemente desconexas.
Arte para mim faz sentido quando se quebra a aparência, quando se quebra a norma e se aponta para o sentido mais progressivo possível daquele momento e daquele espaço no qual o artista está envolto. Tem tudo a ver com emancipação das nossas amarras e sempre com a imaginação e o forte desejo de que as coisas podem ser melhores, muito melhores do que são.
Para todos.
Como eu comentei com a Ana, acho que a arte é um lugar de potência, quando ela é crítica (ainda que eu eu tenda a achar que Arte é sempre crítica, e isso nada tem a ver com a temática escolhida pelo artista e nem com sua linguagem e óbvio tb que quando digo Arte não incluo as mercadorias da indústria cultural, se bem que o debate aqui é longo, enfim) mesmo que não aponte saídas, está subentendido sua crença numa possibilidade de algo melhor.
Depois de tanto lero-lero, segue o vídeo do tal professor, controverso em alguns momentos, mas interessante sem dúvida, obrigada Rafa:
Bem... é bem interessante, talvez eu nunca tenha pensado sobre metade do que ele falou, mas mas discordo cabalmente sobre a visão sobre a língua/linguagem do figura aí.
ResponderExcluirBasta saber que as línguas românicas (Português, Espanhol, Italiano...) vem do latim vulgar e não do culto. A língua está em constante transformação, porque é materialidade, é elaboração dos sentidos concretos e não uma rosa numa redoma de vidro. Senão teria morrido há séculos.
mas enfim, sobre arte, acho o enfoque um tanto descolado do mundo real, mas depois assisto com mais calma e comento...
[]s,
Oi oi,
ResponderExcluirO cara é bão memo. tive que segurar pra não desligar ele nos primeiros 8 minutos pq é de uma arrogância.... academia é fueda. Mas depois de fato fica boa a discussão. Ele tem muito ritmo e precisão na fala e faz a gente pensar sobre a função da arte. Mas acho que discordo de que a arte seja necessariamente crítica por ser arte. Ao dizer isso esquecemos que toda a arte conhecida é da indústria cultural e tb não podemos deixar de ver que o mundo "alternativo" da arte, principalmente se pensamos na cinematográfica, gira em torno de uma fração intelectualizada da classe média que passa a constituir tb um determinado mercado. No Brasil isso é frágil, mas na Europa isso é explícito - como o alternativo deixa de ser outsider e se conforma em uma bolha de produção e consumo de um grupo privilegiado. Sem contar que mesmo a arte dita "alternativa" pode trazer uma estética diferente, mas um conteúdo bastante conformista. Acho que tudo isso tem a ver com a discussão forma e conteúdo. A superação da forma não leva necessariamente à do conteúdo. Ainda que eu ache que a arte, a comunicação e as formas de linguagem de nossas relações cotidianas precisem ser transformadas e mesmo libertadas pra desenvolvermos qualquer crítica social. Por mais que determinado conteúdo seja bem formulado e desenvolvido não podemos nos furtar disso.
Bejos e seguimos construindo
Ana
É gente, eu concordo com vcs.
ResponderExcluirO vídeo fica bom quando ele entra na discussão de arte mesmo, que é lá pelo oitavo minuto mesmo, como a Ana disse.
Denis, de fato, esse lance da linguagem me incomodou também. A língua não é de cima pra baixo, é ao contrário. Como qualquer outra produção humana está em constante processo e esses processos é que geram os artistas e não os artistas que geram os processos, enfim..
A realidade é que funda a consciência e não o contrário, não existe homem a frente do seu tempo neste sentido, pra mim, o que entendemos como estar a frente comumente, é quando a pessoa alia sua reflexão às tendências mais progressivas do momento histórico no qual se vive.
Ana, quando eu penso que toda arte é crítica estava pensando em grande arte e não na nossa produção atual. Penso no sentido de que aqueles caras que marcaram época foram sempre transgressores, ou para seu próprio campo artístico (e neste sentido geram novas ferramentas para expressar o mundo) ou mais aliado com um conteúdo transgressor mesmo (se bem que tenho dúvidas mesmo quanto a possibilidade de separação de forma e conteúdo).
Mas claro, vc trouxe a coisa pro chão, e é verdade, a produção de arte hoje tem inúmeros problemas e eu sinto na pele a miséria do capital atingindo e contaminando a arte.
A sensação de claustrofobia, de falta de ar é enorme. E a de isolamento tb, é foda.
Parece que não há terreno fértil para se desenvolver, que a aparência dominou todos os campos da vida de vez..
Não sou Adorniana, mas que dá medo, ah se dá..
beijinhos
Poli, tambem acho perigoso falar que toda arte, a grande arte, seja crítica... só um possível exemplo: o concretismo na poesia... movimento que surge, com seus fundamentos teóricos claros, no Brasil (mais ou menos, mas fica assim)... muitos falam do vanguardismo do concretismo, mas pra mim e alguns outros poucos autores (gullar, na época boa, é um feroz crítico do concretismo) vão ver nisso um retrocesso da poesia, que passa a trabalhar com uma linguagem praticamente sem discurso efetivo (pois o jogo visual com as palavras permitiria inúmeras leituras), que restringe a poesia a um campo muito específico e estreito de comunicação... não é que o concretismo não traga e lide com idéias interessantes (que podem inclusive fomentar, posteriormente, a grande poesia crítica), mas acaba realizando um movimento conservador quando se estabelece enquanto escola/movimento com uma proposta tão restrita (inclusive bem adaptada aos tempos modernos de propaganda/marketing)... inegável que o concretismo seja grande arte, mas pra mim não atua com efeito crítico... o gullar tem um texto interessante chamado "Vanguarda e subdesenvolvimento" fácil de achar na internet... vale a pena... bejin, jeff
ResponderExcluirPra ilustrar, aqui vai um trecho do texto que mencionei do gullar onde ele critica o Mallarmé (considerado um grande poeta - grande arte - e que influenciou diretamente os concretistas). É grande o trecho mas vale a pena. bejin, jeff
ResponderExcluir"É interessante examinar, aqui, essa coexistência num poeta de um pensamento metafísico, retrógrado mesmo, totalmente desligado da realidade objetiva, e uma técnica renovadora. Já observamos anteriormente como a necessidade de dar concretude a uma realidade imaginária, abstrata, conduziu Mallarmé à ritualização do trabalho poético e ao despojamento gradativo e implacável da própria linguagem reificada. Mergulha na “mistificação especulativa” que – segundo Marx – consiste em conceber a fruta como substância e as maçãs e pêras como modos desta substância. “Por um lado – diz Marx – a realidade sensível é por esse procedimento anulada especulativamente; por outro, nasce uma dificuldade inventada, mas agora insuperável. Entretanto, é tão fácil produzir, a partir de frutas reais, a idéia abstrata ‘a fruta’ quanto é difícil produzir, partindo da idéia abstrata ‘a fruta’, frutas reais. É inclusive impossível se chegar a uma abstração ao contrário da abstração sem se renunciar à abstração” (Marx). Noutras palavras: a abstração só nos conduz a abstrações cada vez maiores, a menos que se admita a prioridade do mundo sobre a consciência. O nível de abstração a que chega Mallarmé através da sua especulação poética leva-o a defrontar-se com o vazio angustiante a que ele atribuía uma significação mística e que é apenas a simples ausência de referências à realidade concreta: o silêncio do pensamento não formulado e que, depois de negar-se às conexões do mundo real, nega-se às próprias conexões sintáticas, reflexos daquelas conexões. O rompimento de Mallarmé com a construção linear, unidirecional, da linguagem, no poema Un Coup de Dês, e a busca de uma construção aberta, multívoca, espacializada, é a superação da linguagem simbolista que pretendia, com metáforas e símbolos, vencer a lógica positivista das relações de causa e efeito. A ambivalência da expressão poética simbolista adquire agora maior complexidade e reflete as relações dialéticas do real. No entanto, como tal construção verbal está a serviço de uma visão metafísica, ela tende a se esgotar em si mesma ou a avançar até a desintegração total das relações sintáticas. O passo adiante – le Livre – atinge uma fragmentação maior e permanece inconcluso, ao que tudo indica por não ter o poeta encontrado o caminho para concluí-lo com êxito. De fato, o verdadeiro passo adiante, a verdadeira ruptura, ficou por se dar: a renúncia à abstração. "