segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A gente precisa aprender a receber os nãos da vida.

Essa foi a frase do Edson pra Natália hoje, no parque da luz, lugar no qual o ilustríssimo Coletivo da Artistas Intermitente Abismo de Sonhos costuma ensaiar quando não consegue outro espaço.

O parque da Luz é nosso amigo íntimo.
Conhecido por suas prostitutas velhas, pela moda de viola aos fins de semana e pela variedade de etnias que cercam a região, tornou-se nosso parque favorito para intervenções e principalmente para observar as pessoas com alguma tranquilidade.
Foi basicamente o que fizemos hoje: observar. Já fizemos isso antes e é impressionante como a vida é que é de fato bela. Eu, particularmente, fiquei com a sensação clara da pequeneza da arte diante da vida, própria.
20 minutos. 20 minutos de caminhada sozinhos pelo parque, cada um na sua na tentativa de se abrir tanto para os estímulos que vinham de fora, do que observávamos com todos nossos sentidos e abertura também para deixar vir nosso estado, que - desculpem o comentário - era bastante calamitoso.
Depois deste tempo nos encontramos novamente e compartilhamos as experiências. Hoje não foi um dia tão estético quanto o anterior no parque. Mas a vida continua sendo mais, sem dúvida.
Durante a minha caminhada fui abordada como puta. Foi bastante angustiante. Senti que poderia ser agredida a qualquer momento. Não por conta da qualidade da abordagem, mas simplesmente por ter sido abordada. A mera sensação de ver o outro tratando seu próprio corpo como um objeto, uma coisa inanimada sem vontade própria foi absolutamente agressiva pra mim.
Vimos muita tristeza e alegria, como sempre. Olhares melancólicos, muita gente sozinha, as putas, as crianças e quantas as histórias se cruzando ali. Parece que as pessoas têm espectros atrás delas, como se todo seu passado que se condensa naquele momento fosse uma sombra, um rastro que as segue na medida em que elas caminham, fazendo um grande desenho no chão do parque.
As crianças, que trazem um misto de esperança - por mais banal que seja dizer isso - e ao mesmo tempo um peso, e de fato não sabemos que tipo de mundo herdarão - novamente por mais banal que seja dizer isso.
Ao final, tiramos umas fotos. As árvores lá são lindas, parecem mulheres grandes e a luz estava muito bonita e quentinha.


No parque da luz é possível tomar um sol gostoso mesmo sem poder pisar na grama, pois o guardinha vem advertir.
Indo embora ainda vimos um homem se barbeando em pleno parque, com um espelhinho, garrafinha d'água, uma mala grande, tudo disposto de maneira organizada sobre um banco na sombra. Esta imagem selou nosso encontro. Eu vi tristeza, a Na também, o Ed não... não tentamos chegar à qualquer conclusão, a vida é de fato mais.
Depois que fomos embora, fui pro carro. Uma mulher chorando, desesperada veio me vender qualquer coisa. Dei um trocado e desejei sorte. Ela disse que ninguém se aproximava dela por conta de que ela não estava arrumada, que estava suja e enfim... me despedi dela.
Às vezes a vida é tão mais que escapa.

5 comentários:

  1. Ah! Em breve as fotos do dia no parque.

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  2. Poli,
    muito bonito seu texto...é triste e bonito.
    Lembrei de vcs durante todo meu fim de semana...foi muito bom conversar no sábado e ver tudo oq vimos.
    Continuei me sentindo um pouco egoista, ate mesmo em relação a vcs, mas me senti amada e senti o qto os amo, independente de arte....falo dessa vida que escapa.
    Chegando em Campinas um bebado me abordou, ao mesmo tempo que um morador de rua tentou me assaltar. Esse mesmo bebado me defendeu, eles sairam na porrada e ate eu fui 'agredida' - sem querer, obvio, eles estavam bebados! - ao fim dessa confusão, guardas civis chegaram e surraram esse mesmo bebado. Me senti tão impotente, meu onibus chegou e eu tive que ir embora.....a vida escapa mesmo. Espero que esse bebado esteja a salvo e que seus mnotivos para bebedeira não se agravem a cada dia.
    De qq forma, continuo lembrando de vcs....de uma forma boa.

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  3. Quando eu digo que é preciso saber receber um não da vida, não quero dizer que devemos ser passivos diante das contrariedades. Nem sei se os nãos são da "vida" em si, mas sei que um não pode significar não agora, não desse jeito, ou simplesmente não mesmo. Acho que numa época de tantos nãos, eu tenho tentado aprender a "dançar" com eles, ao invés de ficar plantado num canto contrariado.
    Sobre o homem que fazia a barba, não é que eu ache triste ou não. Só não me sinto à vontade pra imprimir uma avaliação. O que eu sei dele é aquele instante que nós três o vimos. Se fazer a barba no meio do parque é decadência ou luta por dignidade, só ele pode dizer. Também não me sinto no direito de sentir pena, porque isso seria diminuí-lo ou me supervalorizar, coisas que não ajudam nem a ele nem a mim.

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  4. Bad,

    Eu achei aquela situação da barba triste mesmo.
    É bonita na medida em que eu vi que ele estava mesmo tentando manter sua dignidade, sabe? Mas ao mesmo tempo veio uma sensação do quanto uma pessoa pode ou consegue resistir neste mundo que é a nossa negação... enfim, fiquei com a sensação de que ele acabara de chegar nesta situação e que é mais possível que a realidade o triture... gostaria que não, de verdade.

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  5. "aqui no parque da luz eu vejo pessoas de verdade, as pessoas que frequentam são como elas são e não como elas querem parecer ser" - quem disse isso?

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